terça-feira, dezembro 03, 2013

Raphael Bordalo Pinheiro e a Maçonaria



 




Raphael Bordalo Pinheiro e a Maçonaria 
Por: Henrique Tigo


Em pleno século XXI, a Maçonaria provoca ainda reações adversas, proliferando sobre ela milhares de lendas e histórias erróneas.
A Maçonaria tem, desde sempre, acolhido homens de todas as convicções políticas e religiosas. Para que um profano (i.e. um não iniciado) se tornar um maçom, é exigida a crença na existência no Grande Arquiteto do Universo (GADU) e na imortalidade da alma, sendo dentro desta construção moral que a Maçonaria trabalha. Pretende, assim, tornar homens bons em homens ainda melhores, construindo dentro de cada Irmão um templo de virtudes e realizações éticas.
Pese embora os propósitos da Maçonaria sejam questionados essencialmente pelos desinformados, as portas dos seus templos estarão sempre abertas para dar as boas-vindas a todos os homens livres e de bons costumes, não obstante a religião que professarem (i.e. cristãos, judeus, muçulmanos, budistas ou quaisquer outros).
Não é, pois, de estranhar que a lista de “ilustres” que eram ou são Pedreiros- Livres seja enorme. Provavelmente, até aqueles que dizem ter sérias reservas sobre a Maçonaria reverenciarão alguém que poderá muito bem ter sido iniciado nos seus mistérios.
Reis, clérigos, músicos, artistas, cientistas, escritores, médicos... a lista de notáveis Maçons é infindável. Entre os seus grandes vultos encontramos, por exemplo, Afonso Costa, Alexandre Herculano, Alfred Keil, Almeida Garrett, António Augusto de Aguiar, António José de Almeida, Bissaia Bareto, Bocage, Camilo Castelo Branco, Carlos Mardel, Castilho, o Duque de Loulé, o Duque de Saldanha, Eça de Queiroz, Egas Moniz, Elias Garcia, o rei D. Fernando II, Gago Coutinho, Gomes Freire de Andrade, Henrique Lopes de Mendonça, Miguel Bombarda, Norton de Matos, A. H. de Oliveira Marques, o rei D. Pedro IV, Raul Solnado, Raul Rego, Ribeiro Sanches, Teófilo Carvalho dos Santos, Viana da Mota, entre muitos e muitos outros. Se pretendêssemos enunciar todos os mais ilustres Maçons de Portugal, muito possivelmente necessitaríamos de um livro dedicado à sua enumeração.
 
CertIficado de Iniciação no GOL de RBP 1

Nessa listagem também encontramos, sem que tal seja razão de grande surpresa, o nome de Raphael Bordalo Pinheiro.
Acérrimo defensor da liberdade de expressão (tão importante nos seus trabalhos), encontra da Maçonaria o reflexo perfeito desse seu grande ideal. Com 29 anos, abraça os ideais da Maçonaria e é iniciado em 1875 na Loja Restauração de Lisboa. Segundo uma antiga tradição maçónica, Raphael Bordalo Pinheiro adota um nome simbólico, tendo escolhido o nome de “Goya”. Fiel a si mesmo, Raphael escolheu como mentor iniciático o pintor espanhol Goya, esse artista espantoso em cuja obra se combinam as notações grotescas, as visões de pesadelo, o escarninho dos rostos e as denúncias da crueldade.

A Maçonaria é uma Ordem iniciática e ritualística, universal e fraterna, filosófica e progressista, baseada no livre-pensamento e na tolerância, que tem por objetivo o desenvolvimento espiritual do homem com vista á edificação de uma sociedade mais livre, justa e igualitária”.[1]

Ao entrar para a Maçonaria e, portanto, enquanto Maçom, Raphael Bordalo Pinheiro permitiu-se a possibilidade de se aperfeiçoar, de se instruir e de se autodisciplinar, convivendo com pessoas que, pelas suas palavras e obras, revelaram-se exemplos de vida e de pensamento. Raphael, Maçon, passou a ser um pedreiro-livre, categorização que poderemos traduzir como livre-pensador.
É sabido que Raphael Bordalo Pinheiro foi iniciado na arte real (expressão sinónima de Maçonaria) e foi apurado a que grau interno à Maçonaria terá chegado.  Concretamente, no seu grau primário de aprendiz, sabemos que muito rapidamente se identificou com a pedra bruta, sinónimo de trabalho sobre si mesmo por forma a transformar-se futuramente em cúbica, apta às exigências construtivas. Transaccionalmente, seria o homem que se iria polindo através do contacto com os seus irmãos por via de ensinamentos, em grande parte simbólicos. 
Abordando agora (e muito sucintamente) a história da Ordem Maçónica, é relevante dizer que a mesma é herdeira das associações de artistas do Mundo Antigo, especialmente do Egipto, da Grécia e de Roma, e está ligada cronologicamente às corporações de pedreiros da Idade Média (século VIII). Existem mesmo indícios de que o chefe destas corporações passou a designar-se em Inglaterra a partir de 1278 por mestre maçon, o mesmo sucedendo em França com a construção da catedral de Notre-Dame (1283). É o período histórico ao qual é inerente o grande apogeu da maçonaria operativa (ou de operários-construtores).
Os segredos e códigos dos Maçons assim como outros conhecimentos estão vedados a elementos estranhos aos seus trabalhos, pois a sua divulgação com a entrada dos mesmos no conhecimento público implicaria a perda de várias das suas prerrogativas. Por esse motivo, ainda hoje são transmitidos secretamente nas lojas (local de reunião dos Maçons) pelos mestres aos discípulos de reconhecida aptidão e honorabilidade, transmissão essa sempre precedida de um juramento solene.
No mundo profano (não maçónico), a Maçonaria é, em parte, interventiva através de instituições que têm "vida" própria. Em Portugal, essas instituições ditas paramaçónicas existem na sociedade civil desde do séc. XVIII, especializando-se em atividades sociais, de beneficência e de cultura, instituições essas que Raphael Bordalo Pinheiro ele próprio frequentava.
São exemplos destas instituições: a Academia das Ciências, as “Escolas Livres” e A voz do Operário. As associações paramaçónicas também intervieram para criar estruturas laicas na vida social, como a Associação Liberal Portuguesa (1889) e a Associação do Registo Civil (1895). Temos ainda relatos de grupos de combate à escravatura e à pena de morte fundados no século XIX com ampla participação maçónica, assim como de alguns movimentos constituídos no século XX para lutar contra a prostituição, o alcoolismo e o jogo.
Falando agora dos instrumentos dos "pedreiros", estes têm inerentes sentidos simbólicos: o esquadro serve para regular as ações; o compasso para dar o sentido dos limites; o avental, símbolo do trabalho, indica a simplicidade dos costumes e a igualdade; as luvas brancas recordam ao Maçon que nunca deve manchar as mãos com a iniquidade; e a Bíblia tem por finalidade última regular ou governar a fé.
Exemplo de Avental de 1875  2
A finalidade da Maçonaria, à luz da sua Constituição, é a construção de um templo de fraternidade universal baseado na sabedoria, na força, na beleza, na prática da tolerância religiosa, moral e política, na luta contra todo o tipo de fanatismo e no exercício da liberdade. Essa constituição é conhecida por Constituição de Anderson, a qual regula os Francos-Maçons desde 1723 e é considerada como sendo o principal documento e a base legal da Maçonaria Universal, que aos poucos foi substituindo os preceitos tradicionais que até então regulavam as atividades da Maçonaria Operativa.
Assim, os instrumentos simbólicos que são atribuídos ao aprendiz maçon para o seu aperfeiçoamento são o martelo e o escopro, próprios ao desbaste da pedra bruta já referenciada. Já os companheiros, grau imediatamente seguinte ao de aprendiz, requerem instrumentos de maior precisão, nomeadamente o esquadro, o nível, a perpendicular, a alavanca e a régua. Estes ascenderão, eventualmente e por fim, à condição de mestres. Atingido esse grau, que poderá demorar anos a obter, o Maçon está em condições de ajudar novos obreiros no seu percurso iniciático.
Os maçons reconhecem-se entre si como irmãos, identificando-se com toques, sinais e palavras, permitindo dessa forma e em qualquer sítio saber se alguém foi iniciado como Maçon. Raphael, indubitavelmente, era reconhecido e reconheceria Maçons desta forma, mundialmente.
A Maçonaria é universal por extensão de seus iniciados. É inclusiva dos bons costumes dentro da sociedade. Ela é provedora de uma filosofia e de uma Fraternidade onde os “irmãos” podem se encontrar no mesmo nível. Ela une todos os homens num laço místico de fraternidade sincera, amor mútuo, fé e trabalho, estando unidos em todos os lugares como construtores que trabalham pela paz e pela harmonia. Dessa forma, não é de estranhar que grande parte dos amigos de Raphael Bordalo Pinheiro, assim como os seus colaboradores e apoiantes, fossem igualmente Maçons.
Encontramos isso mesmo num texto de Magalhães Lima[2] (foi durante largos anos Grão-mestre do G:.O:.L:.) que nós diz:
“O Seculo, folha republicana, que tenho a honra de redigir desde o seu primeiro numero, apreciando não ha muito ainda, a poderosissima organisação de Raphael Bordallo Pinheiro, escrevia o seguinte:
Assim como na banalidade politica portugueza ha a figura grotesca e occa de Arrobas, o tigre, no jornalismo peninsular ha a figura eminentemente viva, original e scintillante de Bordallo Pinheiro, um artista, que vale um exercito, um propagandista que vale uma revolução.
Bordallo Pinheiro é para a sociedade portugueza contemporanea o que Tacito foi para o imperio romano, quer dizer, o seu chronista mais justo e mais indignado. Ha no poderoso temperamento d'este extraordinario artista a nota alta e vibrante, que faz lembrar as coleras de Danton e a eloquencia de Verginaud. É assombroso e é unico.
Cada caricatura d'este artista é um grito de revolta contra a conspiração secular do espirito monarchico-fradesco, que fez de Portugal esta nação molle e incaracteristica, sem vida e sem alma, que ahi anda a matroca no grande mar da civilisação europeia, sem rumo e sem individualidade. Bordallo Pinheiro vinga-nos de toda esta espantosa decadencia, demonstrando quotidianamente, pelas scintillações do seu genio artistico, o que póde ser para a elevação da alma d'um povo um espirito vigoroso e fecundo.
Bordallo Pinheiro é como artista um revolucionario e como revolucionario um creador.
Com a transcripção d'estas linhas, quero de antemão significar aos que me lerem que não é meu intuito desenhar aqui o perfil litterario de Bordallo Pinheiro, mas unicamente critical-o sob o ponto de vista revolucionario e demolidor. Será essa a minha missão como homem politico que sou, e é esse tambem, em meu juizo, o alvo a que certamente mira a Galeria Republicana: - aproveitar das biographados tudo quanto elles teem produzido de util e de salutar em favor do idéal moderno, isto é, em favor da justiça e da democracia.
Bordallo Pinheiro é, acima de tudo, um republicano. As suas obras são justamente collossaes, pela verdade que encerram e pelo ideal que as inspira. Podia Bordallo Pinheiro ser um sectario ferrenho do monarchismo ou do clericalismo; os seus trabalhos haviam porém, de resentir-se naturalmente de uma falsa noção de arte, como falsa e mentirosa é tambem a doutrina monarchica e clerical; o seu genio amorteceria irremessivelmente, e a sua faculdade inventiva estiolaria, sem duvida, á mingoa de seiva e de vibração cerebral.
Considerando-o assim, o nosso intento é evidentemente prestar homenagem decidida e sincera ao primeiro demolidor portuguez e ao mais ardente e terrivel propagandista dos principios democraticos entre nós. Insistamos na phrase acima transcripta, porque nunca se perde em insistir na verdade: "Bordallo Pinheiro é como artista um revolucionario e como revolucionario um creador".
Data do Calcanhar de Achilles a celebridade de Bordallo, como o unico e já agora o inimitavel creador da caricatura em Portugal. Na sociedade portugueza o seu logar é perfeitamente correspondente aos occupados no estrangeiro por Cham, por Gill, por Ortega, por Henry Monier, por Cruiskshand. Em abono da verdade, seja-nos porém licito notar, que, relativamente ao meio em que vive e á escassez de elementos estheticos, que o rodeiam, Bordallo é superior a qualquer dos supramencionados artistas, não só pela delicadeza do traço como pela exactidão dos desenhos, não só pela concepção, perfeitamente genial, que preside a todas as suas obras arrojadissimas, como pelo ideal de justiça e de verdade, que, em tudo e por tudo, transparece nos seus trabalhos monumentaes.
«Depois de alguns mezes de correria artisticas por terras de Hespanha - refere conceituosamente o seu inseparavel e unico companheiro, Guilherme de Azevedo - adormecendo ao som das malagueñas e accordando ao ruido das fusiladas, Bordallo Pinheiro volta a Lisboa e desenha então a Lanterna Mágica em que as suas supremas qualidades de caricaturista se accentuam definitivamente.
Da mesma forma que Henry Monier creára em França, dando-lhe formas lineares, sensiveis, o typo de Joseph Prudhomme, a encarnação do espirito constitucional e burguez de França, Raphael Bordallo cría na Lanterna Mágica, o Zé-Povinho, a representação symbolica da ingenuidade lôrpa da sua terra.
Isto é, Bordallo Pinheiro, achára, como um supremo artista,a formula exacta, representativa do estado social e politico de Portugal, da mesma fórma que Henry Monier, achara a da França.»
Da vastissima galeria de typos, creados e illuminados pelo lapis scintillante e sempre fecundo de Bordallo Pinheiro, é seguramente Zé-Povinho, um ingenuo, um eterno explorado pela corrupção monarchica e clerical do nosso tempo, o typo mais completo e mais bem acabado. Zé-Povinho, na sua encarnação lôrpa e boçal, não é apenas uma figura qualquer, feita para despertar o riso e a gargalhada das multidões. Longe d'isso, elle por si personifica uma sociedade aviltada pela oppressão dos grandes e dos poderosos em que o abuso é lei, a immoralidade norma de vida, e a ignorancia e a miseria o unico fim dos governos, que ha perto de sessenta annos nos teem espoliado e escravisado em proveito proprio, quando não nos espoliam e escravisam em proveito da curia romana ou do estrangeiro.
Bordallo Pinheiro, creando este admiravel typo, fazendo girar todos os acontecimentos nacionaes em redor d'um personagem, tão profundo de verdade como generoso e grande nas intenções e no espirito, provocou por si a anarchia no existente e proclamou bisarramente o realismo na arte e a dignidade na politica.
E' por isso que o Antonio Maria e o Album das Glorias, são hoje das publicações mais notaveis do mundo - precisamente porque representam uma obra justa, uma obra verdadeira, uma obra humanitaria, uma obra de emancipação politica e social. E por isso é tambem, que o povo - a grande massa productora e trabalhadora por excellencia - consagra a Bordallo Pinheiro a mais viva sympathia e o mais desinteressado enthusiasmo - precisamente porque elle é apostolo sincero de uma causa santa, e porque é o campeão audacioso dos seus direitos ultrajados e das suas liberdades escarnecidas. Mais tarde, quando a historia, no seu juizo recto e inflexivel, tomar conta d'esta época, ha de apurar em Raphael Bordallo Pinheiro uma consciencia altiva, um espirito soberano, que soube comprehender, identificando-se com elles, o ideal dos que soffrem e a aspiração dos que anceiam por um reinado de luz e de bem-estar social. E nem mais é preciso para a immortalidade de um artista ante a historia e ante a consciencia humana! Bordallo Pinheiro conseguiu já o que a poucos tem sido dado conseguir em vida - o ser um immortal perante as gerações presentes e futuras!...
A caricatura no desenho, como a ironia na litteratura, como a opera comica no theatro é perfeitamente do nosso meio e do nosso tempo. Raphael Bordallo é, sobretudo, um artista de uma actualidade palpitante; vivo; rapido; originalissimo na conversação, amando por egual o imprevisto e o extraordinario, de uma dedicação unica, como amigo e como companheiro. E' um intransigente, que procura satisfazer á sua consciencia, pondo invariavelmente de parte os seus interesses e as suas conveniencias pessoaes. Foi por isso que no Brazil não fez fortuna, e é por isso que em parte alguma do mundo logrará fazel-a, estou convencido.
Impressionavel por temperamento, como todo o artista, ha n'elle todavia um traço que o caracterisa salientemente - a comprehensão nitida dos seus deveres, como homem e como revolucionario. Para Bordallo, assim como para nós outros, os republicanos, ha principios que se defendem e injustiças que se combatem. E n'este sentido, por tal fórma elle tem preenchido a sua missão na sociedade portugueza que conseguiu já ser um homem temido e perigosissimo, o maximo a que se póde aspirar n'um paiz, bestialisado pelo fanatismo religioso e nunca assás explorado pelos comilões do orçamento monarchico...
Muito ao correr da penna ahi fica um dos traços physionomicos d'este grande revolucionario, d'este eminente artista, tal qual o phantasiámos na nossa humildade politica. Não nos pertence a nós certamente o encaral-o por outro lado diverso do que aquelle por que o fizemos n'esta ligeira apresentação. Escriptores abalisados se teem ocupado d'elle com respeitosa admiração. O seu nome é hoje universal. Não pertence a este ou áquelle povo. Pertence á historia de todos os povos. O que d'elle se tem escripto é nada, relativamente ao que do seu extraordinario trabalho está ainda por escrever.
No dia 13 do corrente faz tres annos que o Antonio Maria, o valente soldado da revolução portugueza, sahiu pela primeira vez á luz da publicidade. Cabe-nos d'este modo a honra de enviar d'aqui d'envolta com a nossa saudade profundissima por Guilherme de Azevedo, um chronista inimitavel e um amigo nunca esquecido, as nossas mais ardentes felicitações ao nosso querido amigo, ao grande e benemerito artista Raphael Bordallo Pinheiro. - Que elle as receba tão sinceras, como sincera é a admiração que lhe consagramos.”

Raphael Bordalo Pinheiro é iniciado quando em Portugal se vivem e se sentem os ventos de mudança. Os republicanos conspiram para derrubar a monarquia e grande parte desses conspiradores são maçons ou membros da carbonária (Primos dos Maçons, em jargão histórico-maçónico). Assim, dentro da sua Loja Maçónica são abordados temas importantes como o  percurso filosófico e político de Portugal (e.g. a divulgação do Iluminismo, no século XVIII para a construção republicana), mas também o religioso, literário ou artístico. Encontramos referências a estes temas nas suas obras e desenhos da altura.
Logo após ter sido iniciado, foi chamado ao Brasil onde fez uma vastidão de amigos, muitos deles igualmente maçons. Não é a isso estranho o facto de que no Brasil a Maçonaria sempre teve muita força ... basta para tal pensar que foi graças à Maçonaria que o Brasil se tornou independente.
Fora dos vultos da boémia artística brasileira que Raphael Bordalo Pinheiro encontra, há um pequeno reduto de rancor que se aperfilha entre os magnatas da Finança e da Política. Raphael Bordalo Pinheiro presenteou as Terras do Brasil com as folhas O Mosquito, Psit!!!  e O Besouro. O Zé Povinho, que tinha nascido no Verão de 1875, logo após ter sido iniciado, foi com ele, aparecendo como cúmplice menor em crónicas figuradas da realidade social do povo brasileiro.
Regressado a Portugal, e como republicano assumido, deu asas à sua liberdade de pensamento e de expressão através dos seus jornais, entre eles O António Maria (primeira série, entre 1879 e 1885), Pontos nos ii (entre 1885 e 1891), outra vez O António Maria (segunda série, entre 1891 e 1893) e finalmente A Paródia (entre 1900 e 1905/06). Neles cinzelou pranchas (nome simbólico que se atribui aos trabalhos dos Maçons) cheias de força e vigor, regadas com riso e com o perfume da ironia, da sátira e da pesada denúncia do burlesco. Foram elas as crónicas mais exaustiva que alguma vez surgiram em Portugal. Todas elas chegam aos ouvidos da corte portuguesa e das mais altas figuras do Estado, tais como o rei D. Luís, o rei D. Carlos I, os ministros Fontes Pereira de Melo, Anselmo Braancamp, Rodrigues Sampaio, financeiros como Burnay, escritores Ramalho, Eça, Junqueiro, Antero (todos maçons) e figuras típicas e tantos, tantos mais.
Encontramos em algumas das suas obras uma sátira à igreja católica, talvez porque a relação da Igreja Católica com a Maçonaria conheceu sempre grandes períodos de tensão, sobretudo a partir do séc. XVIII, onde nas décadas de 1720 a 1740 a Maçonaria penetrou em força em toda a Europa assustando a Igreja e a força do Papa. Como é genericamente sabido, o Papa Clemente XII, em 1738, promulgou a primeira bula de excomunhão de todos os maçons, dando origem a uma longa serie de documentos papais a condenar todas as Ordens Maçónicas, chegando mesmo a ordenar à Santa Inquisição que perseguisse todos os pedreiros-livres.  
Raphael Bordalo Pinheiro, na madrugada de 23 de Janeiro de 1905 e devido a problemas de coração, parte para o Oriente Eterno (i.e. falece) onde o G:.A:.D:.U:. o aguardava.
Raphael pode ter morrido no princípio do séc. XX, mas a atualidade da sua obra faz com que seja intemporal. Foi um pedreiro-livre completo, realizando o sonho de qualquer Maçon, pois conseguiu ser um desenhador e aguarelista, ilustrador de obra vasta dispersa por largas dezenas de livros e publicações, precursor do cartaz artístico em Portugal, decorador, caricaturista político e social, jornalista, ceramista e professor ... enfim, um homem-livre e de bons costumes.

Henrique Tigo


Biografia

ARNAULT. António Introdução à maçonaria. 1.ª ed., 1996. 5.ª ed., Coimbra, Coimbra Editora, 2006

FRANÇA. José Augusto, Rafael Bordalo Pinheiro - o português tal e qual, Livraria Bertrand, 1981

LIMA, Jaime de Magalhães. Rafael Bordalo Pinheiro: moralizador político e social. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1925.

DIAS, Graça Silva; Os primórdios da maçonaria em Portugal. Lisboa: Instituto Nacional de Investigação Científica, 1980, 2 volumes, 4 tomos

A. H. Oliveira Marques, A Maçonaria portuguesa e o Estado Novo, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1983

M. Borges Grainha, História da Maçonaria em Portugal, Lisboa, 1912.


[1] Arnaut, António, Texto retirado de “Introdução á Maçonaria”
[2] Lima, Magalhães, O Seculo nº 11 de Junho 1882

sábado, junho 22, 2013

Homenagem a Joaquim Evónio



HOMENAGEM a JOAQUIM EVÓNIO
(Do afilhado Henrique Tigo)

Joaquim Evonio, meu Padrinho.

É tão difícil falar daqueles que mais amamos, sem parecermos lamechas… ficam tantas coisas por dizer… mesmo assim, vou tentar falar do meu Padrinho, do meu Evonio!!!
Tenho tantas histórias, tantas memórias… vou começar pelo fim, quando, naquele dia de verão, uns senhores o levaram para trás de um pano, onde o iam transformar em cinzas!!!
Até aquele momento, estava frio e distante, como uma rocha, sem verter uma lágrima, mas naquele momento vieram todas de uma só vez…
No dia anterior, fui o último a sair do seu velório, apaguei a luz olhando para o seu caixão e disse-lhe: “Padrinho vou ali fumar um cigarro e já volto…” 
Dias antes tinha estado no hospital; confesso que aguentei até ao fim para o ir visitar, pois na minha cabeça, aquele “monstro sagrado” estava bem e ia sair a qualquer momento; depois tive a noticia que afinal não era assim, que ele só ia sair de lá numa caixa de pinho…
Disseram-me que ele estava farto de perguntar por mim, pelo seu afilhado…
Sai do trabalho e subi a rua; foram os mais difíceis 300 metros da minha vida, passou-me tudo pela cabeça, tive medo do que ia encontrar; entrei no hospital, havia militares por todo o lado, cheguei à senhora da recepção e disse-lhe: “Quero visitar o Sr. Joaquim Evonio de Vasconcelos” e ela respondeu-me: “ O Sr. Coronel está no 7 andar, quarto tal…” Lá fui a medo, parei à porta do seu quarto, respirei fundo e entrei.
Lá estava o meu padrinho, deitado com uma mascara na cara; mas, de resto, igual a si mesmo, com as suas barbas brancas, o seu cabelo todo.
Cheguei-me ao pé dele, dei-lhe aquele beijo que sempre lhe dei, e disse-lhe: “Então padrinho, como é??? Um dia tão bonito e você aqui deitado…” Tirou a mascara e disse-me: “ Então oh desgraçado!!!… onde tens andado?” e vi nos seus olhos uma lágrima de emoção por eu estar ali.
Ali ficamos os dois, mais de uma hora, falei…falei, notava-se que ele estava com dificuldade em respirar, mas ainda me disse para eu ir buscar o computador dele, para vermos as novidades na Varanda das Estrelícias, mas como ele estava muito cansado, lá lhe disse que faríamos isso noutro dia…
Agarrei na sua mão e ficamos ali uns 10 minutos, de mãos dadas; depois disse-lhe que tinha de ir, mas que voltava no dia seguinte.
Confesso que saí de lá, com esperança que ele se recuperaria; liguei a minha madrinha, a contar-lhe o que se tinha passado e a transmitir a minha mensagem de esperança.
No dia seguinte (quinta-feira) voltei, não me queriam deixar entrar, pois já lá estava muita gente: a minha madrinha, a minha prima Pakika, o meu Pai e o Manuel Antunes, mas eu lá entrei na mesma, dei-lhe um beijo, fiz uma festa na mão e saí…
Na sexta-feira não fui lá, só foi o meu Pai, que foi das últimas pessoas a vê-lo com vida…
No Sábado estava na auto-estrada quando o meu telemóvel tocou: era a minha mãe a dar-me a noticia, com muito medo da minha reacção… Confesso que foi um misto de sensações: raiva, descrédito, tristeza, etc, etc.
Aquele “monstro sagrado” tinha-me deixado, tinha feito comissões na Guerra do Ultramar, 17 operações com anestesia geral, tinha lutado contra tudo e contra todos e agora desaparecia assim…tinha-me deixado…
Olhando para traz - na minha vida - ele, tinha lá estado, nos momentos mais importantes.
Sem barba, com barba, nas minhas exposições, na defesa da minha tese de licenciatura, na mesa de honra dos lançamentos dos meus três últimos livros... fez a revisão dos meus textos, dos meus livros, das minhas teses; dizia que eu tinha boas ideias, mas que escrevia mal, devia-me dedicar só a pintura e deixar a escrita, mas eu sei que - no fundo - ele tinha orgulho de mim e do que eu escrevia…
Lembro-me de ele dizer cheio de orgulho: “Este é Dr.!!! Eu estive lá… e vi a defesa da sua tese!!!
Eu e o meu pai fizemos a exposição oficial dos 500 anos do Funchal, e, quando dei por mim, o Padrinho estava lá; tinha-se metido num avião e tinha ido à Madeira, para estar connosco e para a inauguração da exposição.
Durante anos todas as sextas-feiras jantamos juntos. Estávamos juntos a jantar quando o meu Pai teve o ataque cardíaco, e ele fez tudo para salvar a vida do meu pai…
Esteve no meu casamento, ao meu lado no altar, foi o último a sair do meu casamento, levou livros e deu-os a todos: quando dei por mim estava toda a gente à volta dele, enquanto ele declamava e dava autógrafos!
Ainda hoje, quando entro na sua casa, estou sempre a espera que ele saia do escritório a gritar: “Estás cá oh desgraçado!!!”.
Passados uns dias do seu desaparecimento físico, a minha madrinha chamou-me lá a casa e disse-me: “ O teu padrinho, queria que tu ficasses com o carro dele…” e assim todos os dias estou mais perto dele… ele mora no meu coração, na minha alma!!!
Por isso tenho orgulho em dizer: O Evonio é o meu amigo, é o meu padrinho, e tudo farei para não deixar apagar a sua memória.
Este “monstro sagrado” deixou a Ilha da Madeira, para vir para a Capital do Império, para ser militar; por Portugal perdeu a ponta de um dedo, um pé, fez 17 operações, criou a Protecção Civil, e deu voz aos “artistas” desde mundo através da Varanda.
E hoje esteja ele onde estiver, tenho a certeza que - entre um copo e um cigarro - continua a plantar a semente da palavra.


Henrique Tigo
(afilhado)
Ilustração H. Mourato

quarta-feira, março 20, 2013

Entrevista ao Grão-mestre


Confraria dos Enchidos faz 6 meses
Entrevista com o seu Grão-mestre.

Quando se ouve falar em Confraria Gastronómicas, pensamos logo em algumas regiões de Portugal, mas no passado dia 31 de Outubro de 2012, nasceu uma nova confraria em Lisboa.

Um grupo de amigos juntou-se e criaram a confraria de que se fala no momento, uma vez que a mesma faz meio ano de existência resolvi realizar esta entrevista com o confrade fundador e Grão-mestre Henrique Tigo para melhor conhecermos esta confraria.

O.F: Como tiveram a ideia de criar a Confraria dos Enchidos?
H.T: Nós já andávamos com a ideia de criar uma confraria, e como todas as sextas feiras, almoçamos juntos e já nós entoávamos “a confraria”, e as nossas entradas são sempre uma travessa de enchidos, achamos que poderíamos ser a Confraria dos Enchidos.

O.F: E que passos deram para criar a confraria?
H.T: Fomos nos informar se já havia alguma confraria dos enchidos, vimos que não… então, entramos em contacto com a Federação Portuguesa das Confrarias Gastronómicas (FPCG), tivemos todas as informações e indicações de como criar uma confraria, e a Dr.ª Madalena Garrido, presidente da FPCG, deu-nos toda a ajuda necessária para tornar esse sonho numa realidade.

O.F: Porque dizem que a confraria nasceu no dia 31 de Outubro de 2012?
H.T. Foi no dia em que nos reunimos todos, numa assembleia-geral, e onde criamos os nossos estatutos e elegemos os órgãos sociais, ficando assim a data oficial “do nascimento da confraria”.

O.F: Que passos deram a seguir?
H.T: Tivemos de criar um logótipo e um traje, pelo que  falei com o artista plástico Ricardo Passos que criou este lindíssimo logótipo e eu desenhei o traje, criamos um facebook e uma página na net, ambos criados pelo nosso confrade Pedro Boléo. Site que aconselho uma visita em www.confrariadosenchidos.com

O.F: Sabemos que já houve uma polémica com o vosso logótipo que andou em vários jornais regionais e nacionais. O que se passou afinal?
H.T: Fomos questionados por outras confrarias se estávamos a promover/apadrinhar a Feira dos Enchidos de Monchique, pois o nosso logótipo estava nos cartazes daquele evento quando analisamos, o logótipo usado pela autarquia  para promover o certame era "praticamente igual" ao da nossa confraria.
Assim entramos em contacto com os responsáveis da Câmara Municipal, que negaram a semelhança entre as imagens e afirmaram que agora nada poderiam fazer, uma vez que o material publicitário já tinha sido distribuído e que mesmo que fossemos para tribunal, até a situação ser resolvida o certame já tinha acabado.
Mesmo assim demos à Câmara uma hipótese de chegar a um consenso até hoje, mas ainda não obtivemos resposta, e não houve qualquer pedido de desculpas ou tentativa de se dissociarem da imagem da confraria.
Aliás os responsáveis da Câmara além de nada terem feito ainda disseram em publico que esta polémica ainda fez que o certame tivesse mais visitantes, pois “demos-lhe publicidade grátis e da boa”.
Quero salientar que a C.G.E não tem nada contra este tipo de certames pois um dos objectivos da nossa confraria é ajudar os produtores e artesãs/ artesãos dos enchidos, assim como aos apreciadores de enchidos, promover o contacto com o que de melhor se faz em Portugal.

O.F: A quem diga que as confrarias são um grupo de amigos que se reúnem só para “almoçaradas”. O que diz sobre isso?
H.T: Os objectivos de todas as confrarias estão bem definidos por cada uma, mas todas tem como objectivo defender a gastronomia nacional que além de ser um património nacional, é também cultura, preservando assim as receitas dos nossos antepassados, ajudando as mesmas a passarem de geração em geração.
Assim as confrarias são como cavaleiros que se comprometem as zelar e divulgar a nossa identidade através do enorme património gastronómico que os nossos antepassados nos deixaram

O.F: E então que iniciativas fizeram até agora?
H.T. Realizamos no nosso I Capitulo de Entronização, e onde os nossos principais órgãos sociais foram entronizados pelas nossas confraria madrinhas, a Confraria da Chanfana e a Confraria da Marmelada de Odivelas.
Organizamos uma prova de degustação em Massamá, fomos o júri do melhor enchido da 24ª Feira do Enchido em Tábua, celebramos protocolos com algumas entidades para ajudar e difundir o enchido nacional, em Portugal e além fronteiras. Criamos uma newsletter, entre outras.

O.F: Quantos confrades têm a Confraria dos Enchidos?
H.T: Somos cerca de 50, e em Maio serão entronizados mais 20.

O.F: Nas confrarias existem sempre figuras publicas a confraria dos enchidos, tem algum “famoso”?
H.T: Sim, são nossos confrades o Paço Bandeira, Jorge Ganhão e serão entronizados em Maio o Carlos Alberto Moniz e o Arquitecto Tomás Taveira entre outros.
 
O.F: Como nós podemos tornar confrades?
H.T: Através de convite de algum dos confrades, ou então podem ir ao nosso site fazer uma candidatura espontânea.

O.F: Onde é a vossa sede?
H.T: A nossa sede é em Lisboa mas além de Lisboa temos uma delegação no Alentejo e outra em Leiria.

O.F: Quando vai haver entronizações de novos confrades?
H.T: Normalmente as confrarias só fazem um Capitulo de entronização por ano, mas a Confraria dos Enchidos, que não está limitada a uma zona, concelho ou distrito e não tem qualquer apoio, patrocínio ou ajuda de qualquer autarquia ou entidade pública ou privada, vai realizar só em 2013, mais 3 entronizações e elas são:
II Capitulo de Entronização – 11 de Maio em Góis, com o apoio da Câmara M. de Góis.
III Capitulo de Entronização – 31 de Agosto no Castelo de Ourém, Restaurante Medieval de Oureana, com o apoio do Real Confraria Enófila Gastronómica - Instituto D Afonso, IV Conde de Ourém.
IV Capitulo de Entronização – 31 de Dezembro de 2013/1 de Janeiro de 2014, passagem do Ano no Cruzeiro no Tejo.


O.F: Então e para finalizarmos, quais são os projectos futuros da Confraria dos Enchidos?
H.T: Apoiar a elaboração e divulgação de trabalhos sobre a gastronomia regional, e em especial dos enchidos e pratos e sopas que levem enchidos, designadamente sobre a sua história e antigas técnicas de produção;
Promover seminários, conferências, workshops e passeios culturais;
Divulgar por todos os meios adequados, as virtudes e tradições ligados à gastronomia regionais na realização e produção de enchidos;
Organizar concursos afim de eleger e premiar anualmente os melhores profissionais da gastronomia, quer no âmbito da cozinha quer serviço que a complemente, bem como as entidades individuais ou colectivas que tenham contribuído de forma relevante para promover a gastronomia dos enchidos em Portugal e além fronteiras;
Estabelecer relações com outras confrarias existentes, portuguesas ou estrangeiras, privilegiando as que se ocupem da gastronomia Portuguesa;
Colaborar com os órgãos locais, regionais, nacionais ou internacionais de turismo em todas as acções tendentes à divulgação e promoção dos nossos enchidos.
Elaboração de uma revista ou catálogo com o fim de promover os melhores enchidos e pratos tradicionais.
Organizar provas de degustação, almoços, jantares festas, recepções, banquetes, reuniões, pelos menos mais dois capítulos de entronização de novos confrades até ao fim do ano.

Entrevista de Orlando Fernandes (Jornalista)