segunda-feira, dezembro 30, 2013

Carta Aberta a minha Professora



Carta Aberta para Margarida Santos Carvalho.



 













Minha Querida Margarida Santos Carvalho, ainda não acredito, as lagrimas ainda não pararam...
A saudade já começou a apertar...
Lembraste quando te conheci, com apenas 10 anos, como me ensinaste que havia mais no ensino do que estar entre quatro paredes, havia um mundo lá fora e que a escola era um espaço de cultura e de vida e que as aulas tinham de ser vividas…
Lembraste de quando me apresentaste o Prof. Agostinho da Silva, quando fomos a aula magna representar a Fernão Lopes, quando fomos ao Cais do Sodré recriar Lisboa no seculo XVI, dos nossos Clubes, como acreditavas que havia outra maneira de ensinar?
Ainda te lembras como chorei na nossa última aula, na Fernão Lopes? E como sorri quando foste a Dona Maria a minha procura… De quanto fiquei feliz quando voltaste de Macau!.
Lembraste das minhas exposições de pintura, estiveste em quase todas… Ainda te lembras do meu auto-retrato com o meu avental Maçónico que tens no teu escritório
Ainda te lembras das conversas que tivemos sobre o teu Jogo? Das conversas sobre Timor, de quanto estavas contente quando me falaste da Carta que o Xanana escreveu sobre a nossa Fernão Lopes?
Lembraste da peça de teatro que escrevi e levei a cena no Teatro Passagem de Nível na Amadora, inspirada no que me ensinaste sobre a revolução dos cravos e onde estiveste na primeira fila no dia da estreia.
Ainda te lembras de teres estado na defesa da minha tese e de me teres dado aquela enciclopédia sobre geografia? Lembra-te de teres apresentado o meu terceiro livro na Apelação,
Lembraste das nossas conversas dos nossos cigarros fumados a volta de grandes conversas e ensinamentos…
Ainda te lembras que nos últimos 26 anos na minha vida estiveste sempre ao meu lado…
Lembraste da última vez que tivemos juntos, já estavas muito doente e fraca e continuavas preocupada comigo, com o meu trabalho ou falta dele… chamaste-me o teu menino os teus olhos sorriram e a tua cara ficou iluminada, mais uma vez falamos do teu jogo, da vida e foi tão bom…
Talvez soubesses que 15 dias depois me ias deixar fisicamente para sempre!
Eu sei que sabes que mudaste a minha vida para sempre, hoje gosto de ensinar porque me ensinaste a amar o ensino, ensinaste-me a ser mais fraterno e a amar a liberdade e o 25 de Abril…
Sinceramente só gostava de um dia tocar/moldar um aluno como tu me tocaste, a minha vida hoje ficou mais triste porque me deixaste, mas os teus ensinamentos esses sinceramente nunca me vão deixar.

O teu aluno de sempre e para sempre
Henrique Tigo Mourato.

Lisboa, 30 de Dezembro de 2013.

terça-feira, dezembro 03, 2013

Raphael Bordalo Pinheiro e a Maçonaria



 




Raphael Bordalo Pinheiro e a Maçonaria 
Por: Henrique Tigo


Em pleno século XXI, a Maçonaria provoca ainda reações adversas, proliferando sobre ela milhares de lendas e histórias erróneas.
A Maçonaria tem, desde sempre, acolhido homens de todas as convicções políticas e religiosas. Para que um profano (i.e. um não iniciado) se tornar um maçom, é exigida a crença na existência no Grande Arquiteto do Universo (GADU) e na imortalidade da alma, sendo dentro desta construção moral que a Maçonaria trabalha. Pretende, assim, tornar homens bons em homens ainda melhores, construindo dentro de cada Irmão um templo de virtudes e realizações éticas.
Pese embora os propósitos da Maçonaria sejam questionados essencialmente pelos desinformados, as portas dos seus templos estarão sempre abertas para dar as boas-vindas a todos os homens livres e de bons costumes, não obstante a religião que professarem (i.e. cristãos, judeus, muçulmanos, budistas ou quaisquer outros).
Não é, pois, de estranhar que a lista de “ilustres” que eram ou são Pedreiros- Livres seja enorme. Provavelmente, até aqueles que dizem ter sérias reservas sobre a Maçonaria reverenciarão alguém que poderá muito bem ter sido iniciado nos seus mistérios.
Reis, clérigos, músicos, artistas, cientistas, escritores, médicos... a lista de notáveis Maçons é infindável. Entre os seus grandes vultos encontramos, por exemplo, Afonso Costa, Alexandre Herculano, Alfred Keil, Almeida Garrett, António Augusto de Aguiar, António José de Almeida, Bissaia Bareto, Bocage, Camilo Castelo Branco, Carlos Mardel, Castilho, o Duque de Loulé, o Duque de Saldanha, Eça de Queiroz, Egas Moniz, Elias Garcia, o rei D. Fernando II, Gago Coutinho, Gomes Freire de Andrade, Henrique Lopes de Mendonça, Miguel Bombarda, Norton de Matos, A. H. de Oliveira Marques, o rei D. Pedro IV, Raul Solnado, Raul Rego, Ribeiro Sanches, Teófilo Carvalho dos Santos, Viana da Mota, entre muitos e muitos outros. Se pretendêssemos enunciar todos os mais ilustres Maçons de Portugal, muito possivelmente necessitaríamos de um livro dedicado à sua enumeração.
 
CertIficado de Iniciação no GOL de RBP 1

Nessa listagem também encontramos, sem que tal seja razão de grande surpresa, o nome de Raphael Bordalo Pinheiro.
Acérrimo defensor da liberdade de expressão (tão importante nos seus trabalhos), encontra da Maçonaria o reflexo perfeito desse seu grande ideal. Com 29 anos, abraça os ideais da Maçonaria e é iniciado em 1875 na Loja Restauração de Lisboa. Segundo uma antiga tradição maçónica, Raphael Bordalo Pinheiro adota um nome simbólico, tendo escolhido o nome de “Goya”. Fiel a si mesmo, Raphael escolheu como mentor iniciático o pintor espanhol Goya, esse artista espantoso em cuja obra se combinam as notações grotescas, as visões de pesadelo, o escarninho dos rostos e as denúncias da crueldade.

A Maçonaria é uma Ordem iniciática e ritualística, universal e fraterna, filosófica e progressista, baseada no livre-pensamento e na tolerância, que tem por objetivo o desenvolvimento espiritual do homem com vista á edificação de uma sociedade mais livre, justa e igualitária”.[1]

Ao entrar para a Maçonaria e, portanto, enquanto Maçom, Raphael Bordalo Pinheiro permitiu-se a possibilidade de se aperfeiçoar, de se instruir e de se autodisciplinar, convivendo com pessoas que, pelas suas palavras e obras, revelaram-se exemplos de vida e de pensamento. Raphael, Maçon, passou a ser um pedreiro-livre, categorização que poderemos traduzir como livre-pensador.
É sabido que Raphael Bordalo Pinheiro foi iniciado na arte real (expressão sinónima de Maçonaria) e foi apurado a que grau interno à Maçonaria terá chegado.  Concretamente, no seu grau primário de aprendiz, sabemos que muito rapidamente se identificou com a pedra bruta, sinónimo de trabalho sobre si mesmo por forma a transformar-se futuramente em cúbica, apta às exigências construtivas. Transaccionalmente, seria o homem que se iria polindo através do contacto com os seus irmãos por via de ensinamentos, em grande parte simbólicos. 
Abordando agora (e muito sucintamente) a história da Ordem Maçónica, é relevante dizer que a mesma é herdeira das associações de artistas do Mundo Antigo, especialmente do Egipto, da Grécia e de Roma, e está ligada cronologicamente às corporações de pedreiros da Idade Média (século VIII). Existem mesmo indícios de que o chefe destas corporações passou a designar-se em Inglaterra a partir de 1278 por mestre maçon, o mesmo sucedendo em França com a construção da catedral de Notre-Dame (1283). É o período histórico ao qual é inerente o grande apogeu da maçonaria operativa (ou de operários-construtores).
Os segredos e códigos dos Maçons assim como outros conhecimentos estão vedados a elementos estranhos aos seus trabalhos, pois a sua divulgação com a entrada dos mesmos no conhecimento público implicaria a perda de várias das suas prerrogativas. Por esse motivo, ainda hoje são transmitidos secretamente nas lojas (local de reunião dos Maçons) pelos mestres aos discípulos de reconhecida aptidão e honorabilidade, transmissão essa sempre precedida de um juramento solene.
No mundo profano (não maçónico), a Maçonaria é, em parte, interventiva através de instituições que têm "vida" própria. Em Portugal, essas instituições ditas paramaçónicas existem na sociedade civil desde do séc. XVIII, especializando-se em atividades sociais, de beneficência e de cultura, instituições essas que Raphael Bordalo Pinheiro ele próprio frequentava.
São exemplos destas instituições: a Academia das Ciências, as “Escolas Livres” e A voz do Operário. As associações paramaçónicas também intervieram para criar estruturas laicas na vida social, como a Associação Liberal Portuguesa (1889) e a Associação do Registo Civil (1895). Temos ainda relatos de grupos de combate à escravatura e à pena de morte fundados no século XIX com ampla participação maçónica, assim como de alguns movimentos constituídos no século XX para lutar contra a prostituição, o alcoolismo e o jogo.
Falando agora dos instrumentos dos "pedreiros", estes têm inerentes sentidos simbólicos: o esquadro serve para regular as ações; o compasso para dar o sentido dos limites; o avental, símbolo do trabalho, indica a simplicidade dos costumes e a igualdade; as luvas brancas recordam ao Maçon que nunca deve manchar as mãos com a iniquidade; e a Bíblia tem por finalidade última regular ou governar a fé.
Exemplo de Avental de 1875  2
A finalidade da Maçonaria, à luz da sua Constituição, é a construção de um templo de fraternidade universal baseado na sabedoria, na força, na beleza, na prática da tolerância religiosa, moral e política, na luta contra todo o tipo de fanatismo e no exercício da liberdade. Essa constituição é conhecida por Constituição de Anderson, a qual regula os Francos-Maçons desde 1723 e é considerada como sendo o principal documento e a base legal da Maçonaria Universal, que aos poucos foi substituindo os preceitos tradicionais que até então regulavam as atividades da Maçonaria Operativa.
Assim, os instrumentos simbólicos que são atribuídos ao aprendiz maçon para o seu aperfeiçoamento são o martelo e o escopro, próprios ao desbaste da pedra bruta já referenciada. Já os companheiros, grau imediatamente seguinte ao de aprendiz, requerem instrumentos de maior precisão, nomeadamente o esquadro, o nível, a perpendicular, a alavanca e a régua. Estes ascenderão, eventualmente e por fim, à condição de mestres. Atingido esse grau, que poderá demorar anos a obter, o Maçon está em condições de ajudar novos obreiros no seu percurso iniciático.
Os maçons reconhecem-se entre si como irmãos, identificando-se com toques, sinais e palavras, permitindo dessa forma e em qualquer sítio saber se alguém foi iniciado como Maçon. Raphael, indubitavelmente, era reconhecido e reconheceria Maçons desta forma, mundialmente.
A Maçonaria é universal por extensão de seus iniciados. É inclusiva dos bons costumes dentro da sociedade. Ela é provedora de uma filosofia e de uma Fraternidade onde os “irmãos” podem se encontrar no mesmo nível. Ela une todos os homens num laço místico de fraternidade sincera, amor mútuo, fé e trabalho, estando unidos em todos os lugares como construtores que trabalham pela paz e pela harmonia. Dessa forma, não é de estranhar que grande parte dos amigos de Raphael Bordalo Pinheiro, assim como os seus colaboradores e apoiantes, fossem igualmente Maçons.
Encontramos isso mesmo num texto de Magalhães Lima[2] (foi durante largos anos Grão-mestre do G:.O:.L:.) que nós diz:
“O Seculo, folha republicana, que tenho a honra de redigir desde o seu primeiro numero, apreciando não ha muito ainda, a poderosissima organisação de Raphael Bordallo Pinheiro, escrevia o seguinte:
Assim como na banalidade politica portugueza ha a figura grotesca e occa de Arrobas, o tigre, no jornalismo peninsular ha a figura eminentemente viva, original e scintillante de Bordallo Pinheiro, um artista, que vale um exercito, um propagandista que vale uma revolução.
Bordallo Pinheiro é para a sociedade portugueza contemporanea o que Tacito foi para o imperio romano, quer dizer, o seu chronista mais justo e mais indignado. Ha no poderoso temperamento d'este extraordinario artista a nota alta e vibrante, que faz lembrar as coleras de Danton e a eloquencia de Verginaud. É assombroso e é unico.
Cada caricatura d'este artista é um grito de revolta contra a conspiração secular do espirito monarchico-fradesco, que fez de Portugal esta nação molle e incaracteristica, sem vida e sem alma, que ahi anda a matroca no grande mar da civilisação europeia, sem rumo e sem individualidade. Bordallo Pinheiro vinga-nos de toda esta espantosa decadencia, demonstrando quotidianamente, pelas scintillações do seu genio artistico, o que póde ser para a elevação da alma d'um povo um espirito vigoroso e fecundo.
Bordallo Pinheiro é como artista um revolucionario e como revolucionario um creador.
Com a transcripção d'estas linhas, quero de antemão significar aos que me lerem que não é meu intuito desenhar aqui o perfil litterario de Bordallo Pinheiro, mas unicamente critical-o sob o ponto de vista revolucionario e demolidor. Será essa a minha missão como homem politico que sou, e é esse tambem, em meu juizo, o alvo a que certamente mira a Galeria Republicana: - aproveitar das biographados tudo quanto elles teem produzido de util e de salutar em favor do idéal moderno, isto é, em favor da justiça e da democracia.
Bordallo Pinheiro é, acima de tudo, um republicano. As suas obras são justamente collossaes, pela verdade que encerram e pelo ideal que as inspira. Podia Bordallo Pinheiro ser um sectario ferrenho do monarchismo ou do clericalismo; os seus trabalhos haviam porém, de resentir-se naturalmente de uma falsa noção de arte, como falsa e mentirosa é tambem a doutrina monarchica e clerical; o seu genio amorteceria irremessivelmente, e a sua faculdade inventiva estiolaria, sem duvida, á mingoa de seiva e de vibração cerebral.
Considerando-o assim, o nosso intento é evidentemente prestar homenagem decidida e sincera ao primeiro demolidor portuguez e ao mais ardente e terrivel propagandista dos principios democraticos entre nós. Insistamos na phrase acima transcripta, porque nunca se perde em insistir na verdade: "Bordallo Pinheiro é como artista um revolucionario e como revolucionario um creador".
Data do Calcanhar de Achilles a celebridade de Bordallo, como o unico e já agora o inimitavel creador da caricatura em Portugal. Na sociedade portugueza o seu logar é perfeitamente correspondente aos occupados no estrangeiro por Cham, por Gill, por Ortega, por Henry Monier, por Cruiskshand. Em abono da verdade, seja-nos porém licito notar, que, relativamente ao meio em que vive e á escassez de elementos estheticos, que o rodeiam, Bordallo é superior a qualquer dos supramencionados artistas, não só pela delicadeza do traço como pela exactidão dos desenhos, não só pela concepção, perfeitamente genial, que preside a todas as suas obras arrojadissimas, como pelo ideal de justiça e de verdade, que, em tudo e por tudo, transparece nos seus trabalhos monumentaes.
«Depois de alguns mezes de correria artisticas por terras de Hespanha - refere conceituosamente o seu inseparavel e unico companheiro, Guilherme de Azevedo - adormecendo ao som das malagueñas e accordando ao ruido das fusiladas, Bordallo Pinheiro volta a Lisboa e desenha então a Lanterna Mágica em que as suas supremas qualidades de caricaturista se accentuam definitivamente.
Da mesma forma que Henry Monier creára em França, dando-lhe formas lineares, sensiveis, o typo de Joseph Prudhomme, a encarnação do espirito constitucional e burguez de França, Raphael Bordallo cría na Lanterna Mágica, o Zé-Povinho, a representação symbolica da ingenuidade lôrpa da sua terra.
Isto é, Bordallo Pinheiro, achára, como um supremo artista,a formula exacta, representativa do estado social e politico de Portugal, da mesma fórma que Henry Monier, achara a da França.»
Da vastissima galeria de typos, creados e illuminados pelo lapis scintillante e sempre fecundo de Bordallo Pinheiro, é seguramente Zé-Povinho, um ingenuo, um eterno explorado pela corrupção monarchica e clerical do nosso tempo, o typo mais completo e mais bem acabado. Zé-Povinho, na sua encarnação lôrpa e boçal, não é apenas uma figura qualquer, feita para despertar o riso e a gargalhada das multidões. Longe d'isso, elle por si personifica uma sociedade aviltada pela oppressão dos grandes e dos poderosos em que o abuso é lei, a immoralidade norma de vida, e a ignorancia e a miseria o unico fim dos governos, que ha perto de sessenta annos nos teem espoliado e escravisado em proveito proprio, quando não nos espoliam e escravisam em proveito da curia romana ou do estrangeiro.
Bordallo Pinheiro, creando este admiravel typo, fazendo girar todos os acontecimentos nacionaes em redor d'um personagem, tão profundo de verdade como generoso e grande nas intenções e no espirito, provocou por si a anarchia no existente e proclamou bisarramente o realismo na arte e a dignidade na politica.
E' por isso que o Antonio Maria e o Album das Glorias, são hoje das publicações mais notaveis do mundo - precisamente porque representam uma obra justa, uma obra verdadeira, uma obra humanitaria, uma obra de emancipação politica e social. E por isso é tambem, que o povo - a grande massa productora e trabalhadora por excellencia - consagra a Bordallo Pinheiro a mais viva sympathia e o mais desinteressado enthusiasmo - precisamente porque elle é apostolo sincero de uma causa santa, e porque é o campeão audacioso dos seus direitos ultrajados e das suas liberdades escarnecidas. Mais tarde, quando a historia, no seu juizo recto e inflexivel, tomar conta d'esta época, ha de apurar em Raphael Bordallo Pinheiro uma consciencia altiva, um espirito soberano, que soube comprehender, identificando-se com elles, o ideal dos que soffrem e a aspiração dos que anceiam por um reinado de luz e de bem-estar social. E nem mais é preciso para a immortalidade de um artista ante a historia e ante a consciencia humana! Bordallo Pinheiro conseguiu já o que a poucos tem sido dado conseguir em vida - o ser um immortal perante as gerações presentes e futuras!...
A caricatura no desenho, como a ironia na litteratura, como a opera comica no theatro é perfeitamente do nosso meio e do nosso tempo. Raphael Bordallo é, sobretudo, um artista de uma actualidade palpitante; vivo; rapido; originalissimo na conversação, amando por egual o imprevisto e o extraordinario, de uma dedicação unica, como amigo e como companheiro. E' um intransigente, que procura satisfazer á sua consciencia, pondo invariavelmente de parte os seus interesses e as suas conveniencias pessoaes. Foi por isso que no Brazil não fez fortuna, e é por isso que em parte alguma do mundo logrará fazel-a, estou convencido.
Impressionavel por temperamento, como todo o artista, ha n'elle todavia um traço que o caracterisa salientemente - a comprehensão nitida dos seus deveres, como homem e como revolucionario. Para Bordallo, assim como para nós outros, os republicanos, ha principios que se defendem e injustiças que se combatem. E n'este sentido, por tal fórma elle tem preenchido a sua missão na sociedade portugueza que conseguiu já ser um homem temido e perigosissimo, o maximo a que se póde aspirar n'um paiz, bestialisado pelo fanatismo religioso e nunca assás explorado pelos comilões do orçamento monarchico...
Muito ao correr da penna ahi fica um dos traços physionomicos d'este grande revolucionario, d'este eminente artista, tal qual o phantasiámos na nossa humildade politica. Não nos pertence a nós certamente o encaral-o por outro lado diverso do que aquelle por que o fizemos n'esta ligeira apresentação. Escriptores abalisados se teem ocupado d'elle com respeitosa admiração. O seu nome é hoje universal. Não pertence a este ou áquelle povo. Pertence á historia de todos os povos. O que d'elle se tem escripto é nada, relativamente ao que do seu extraordinario trabalho está ainda por escrever.
No dia 13 do corrente faz tres annos que o Antonio Maria, o valente soldado da revolução portugueza, sahiu pela primeira vez á luz da publicidade. Cabe-nos d'este modo a honra de enviar d'aqui d'envolta com a nossa saudade profundissima por Guilherme de Azevedo, um chronista inimitavel e um amigo nunca esquecido, as nossas mais ardentes felicitações ao nosso querido amigo, ao grande e benemerito artista Raphael Bordallo Pinheiro. - Que elle as receba tão sinceras, como sincera é a admiração que lhe consagramos.”

Raphael Bordalo Pinheiro é iniciado quando em Portugal se vivem e se sentem os ventos de mudança. Os republicanos conspiram para derrubar a monarquia e grande parte desses conspiradores são maçons ou membros da carbonária (Primos dos Maçons, em jargão histórico-maçónico). Assim, dentro da sua Loja Maçónica são abordados temas importantes como o  percurso filosófico e político de Portugal (e.g. a divulgação do Iluminismo, no século XVIII para a construção republicana), mas também o religioso, literário ou artístico. Encontramos referências a estes temas nas suas obras e desenhos da altura.
Logo após ter sido iniciado, foi chamado ao Brasil onde fez uma vastidão de amigos, muitos deles igualmente maçons. Não é a isso estranho o facto de que no Brasil a Maçonaria sempre teve muita força ... basta para tal pensar que foi graças à Maçonaria que o Brasil se tornou independente.
Fora dos vultos da boémia artística brasileira que Raphael Bordalo Pinheiro encontra, há um pequeno reduto de rancor que se aperfilha entre os magnatas da Finança e da Política. Raphael Bordalo Pinheiro presenteou as Terras do Brasil com as folhas O Mosquito, Psit!!!  e O Besouro. O Zé Povinho, que tinha nascido no Verão de 1875, logo após ter sido iniciado, foi com ele, aparecendo como cúmplice menor em crónicas figuradas da realidade social do povo brasileiro.
Regressado a Portugal, e como republicano assumido, deu asas à sua liberdade de pensamento e de expressão através dos seus jornais, entre eles O António Maria (primeira série, entre 1879 e 1885), Pontos nos ii (entre 1885 e 1891), outra vez O António Maria (segunda série, entre 1891 e 1893) e finalmente A Paródia (entre 1900 e 1905/06). Neles cinzelou pranchas (nome simbólico que se atribui aos trabalhos dos Maçons) cheias de força e vigor, regadas com riso e com o perfume da ironia, da sátira e da pesada denúncia do burlesco. Foram elas as crónicas mais exaustiva que alguma vez surgiram em Portugal. Todas elas chegam aos ouvidos da corte portuguesa e das mais altas figuras do Estado, tais como o rei D. Luís, o rei D. Carlos I, os ministros Fontes Pereira de Melo, Anselmo Braancamp, Rodrigues Sampaio, financeiros como Burnay, escritores Ramalho, Eça, Junqueiro, Antero (todos maçons) e figuras típicas e tantos, tantos mais.
Encontramos em algumas das suas obras uma sátira à igreja católica, talvez porque a relação da Igreja Católica com a Maçonaria conheceu sempre grandes períodos de tensão, sobretudo a partir do séc. XVIII, onde nas décadas de 1720 a 1740 a Maçonaria penetrou em força em toda a Europa assustando a Igreja e a força do Papa. Como é genericamente sabido, o Papa Clemente XII, em 1738, promulgou a primeira bula de excomunhão de todos os maçons, dando origem a uma longa serie de documentos papais a condenar todas as Ordens Maçónicas, chegando mesmo a ordenar à Santa Inquisição que perseguisse todos os pedreiros-livres.  
Raphael Bordalo Pinheiro, na madrugada de 23 de Janeiro de 1905 e devido a problemas de coração, parte para o Oriente Eterno (i.e. falece) onde o G:.A:.D:.U:. o aguardava.
Raphael pode ter morrido no princípio do séc. XX, mas a atualidade da sua obra faz com que seja intemporal. Foi um pedreiro-livre completo, realizando o sonho de qualquer Maçon, pois conseguiu ser um desenhador e aguarelista, ilustrador de obra vasta dispersa por largas dezenas de livros e publicações, precursor do cartaz artístico em Portugal, decorador, caricaturista político e social, jornalista, ceramista e professor ... enfim, um homem-livre e de bons costumes.

Henrique Tigo


Biografia

ARNAULT. António Introdução à maçonaria. 1.ª ed., 1996. 5.ª ed., Coimbra, Coimbra Editora, 2006

FRANÇA. José Augusto, Rafael Bordalo Pinheiro - o português tal e qual, Livraria Bertrand, 1981

LIMA, Jaime de Magalhães. Rafael Bordalo Pinheiro: moralizador político e social. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1925.

DIAS, Graça Silva; Os primórdios da maçonaria em Portugal. Lisboa: Instituto Nacional de Investigação Científica, 1980, 2 volumes, 4 tomos

A. H. Oliveira Marques, A Maçonaria portuguesa e o Estado Novo, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1983

M. Borges Grainha, História da Maçonaria em Portugal, Lisboa, 1912.


[1] Arnaut, António, Texto retirado de “Introdução á Maçonaria”
[2] Lima, Magalhães, O Seculo nº 11 de Junho 1882